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Cadê o tesão que estava aqui?

No início, havia a paixão. Com o casamento, a família prosperou, o companheirismo ficou mais forte, mas a chama erótica… está se apagando. Sentiu o drama na pele? Veja como superar esse dilema comum nas relações estáveis e reacender o desejo no dia-a-dia

MARIANA VIKTOR

Letícia e Marcelo* formam um casal invejável. Os dois vivem juntos e felizes há quase 12 anos, numa relação de companheirismo, intimidade, franqueza e muito amor. Têm um filho adorável, uma linda casa, dois carros legais. Enfim, Marcelo e Letícia chegaram lá, apesar dos obstáculos que muito cedo podem destruir uma união, como a frustração de descobrir que o outro não é o príncipe ou a princesa encantada que imaginavam (típica dos primeiros anos de convivência), a rotina e os problemas do dia-a-dia, que vão azedando a relação e podem colocar um ponto final no amor.
Mas enquanto a intimidade, a cumplicidade e o amor cresciam com o passar do tempo, a vida sexual dos dois tomou rumo inverso: começou a minguar e esfriou a tal ponto que eles praticamente não transam mais. “Fico constrangida até de falar sobre isso com meu marido e não consigo entender o que houve. A verdade é que o tesão foi desaparecendo da vida da gente. Simplesmente não temos mais aquele desejo louco que marcou os primeiros anos do relacionamento”, lamenta Letícia.

SEXO PRECISA DE MISTÉRIO

A contradição vivida pelos dois é compartilhada por muitos casais felizes e reforçada pela idéia de que o sexo é conseqüência natural do amor. Como se o sexo, que já é bom na fase da paixão, fosse ainda melhor quando há cumplicidade e confiança. Não é bem assim.

“A vivência de homens e mulheres felizes em casamentos sólidos tem mostrado que a intimidade emocional pode inibir a expressão erótica”, destaca a terapeuta belga, Esther Perel, com consultório em Nova York. Em seu livro Sexo no cativeiro, recém-lançado pela editora Objetiva, Esther resume o impasse: “O amor gosta de saber tudo sobre você, já o desejo precisa de mistério. O amor gosta de encurtar a distância que existe entre você e eu, enquanto o desejo é energizado por ela. Se a intimidade cresce com a repetição e a familiaridade, o erotismo se embota com a repetição”. E ela complementa: “Amor tem a ver com ter; desejo com querer. Sendo uma manifestação de anseio, o desejo está menos interessado em onde já esteve do que em para onde ainda pode ir”.
Foi exatamente a constatação desse paradoxo que levou Esther Perel a escrever a obra, fruto de sua experiência clínica como terapeuta familiar e de casais. Em entrevista exclusiva à UMA, ela diz: “Teria sido óbvio escrever um livro sobre a perda do desejo em casais afetivamente afastados.
Contrariando nossas expectativas, o fato de que o desejo acaba entre casais felizes é que fez a resposta a este livro ser um verdadeiro fenômeno”.
Obviamente, tudo é uma questão de prioridade e temperamento. Tem gente que curte a vida familiar e não acha o sexo indispensável. Para essas pessoas o casamento tradicional pode ser muito gratificante. “Ver os filhos crescendo, curtir o aconchego do lar, a união e o companheirismo são as coisas que elas mais valorizam na relação. Tem que ser necessariamente erótico para fazer bem? Claro que não. Há lugar para todos ao sol”, pondera a psicóloga e terapeuta sexual Ana Canosa, diretora/editora da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (Sbrash).
Porém um casamento tranqüilo, com o sexo em segundo plano, é contra-indicado para quem é ávido pela excitação do movimento e do desconhecido, afirma Ana Canosa. O desafio faz parte da natureza dessas pessoas, que poderão sentir-se frustradas numa relação rotineira. “Elas não deveriam casar-se, a menos que o parceiro aceite sua natureza não-monogâmica, ou o casal terá que achar soluções para satisfazer essa sede de novidades.”
E aí surge outro paradoxo excitante: a mesma intimidade que pode extinguir o desejo também favorece a perda das inibições. Em outras palavras, saber o que desperta tesão no outro pode nos tornar mais ousados e confiantes para vivenciar nossas fantasias secretas. “Se o casal souber aproveitar esses elementos haverá um ganho considerável de qualidade erótica, porque a intimidade usada em favor dos dois pode criar pontes para novos desafios sexuais dentro da relação”, observa Ana Canosa.

O DESEJO COMO PRIORIDADE

Construir essas pontes e trilhar novos caminhos dentro de uma relação rotineira é a proposta do livro de Esther Perel: “A redução do desejo é uma conseqüência imprevista do aumento da intimidade somada à nossa falta de habilidade de conciliar as necessidades de aventura e do inesperado no mesmo lugar onde procuramos segurança e previsibilidade. E, na tentativa de criar conforto e familiaridade, enfraquecemos a vitalidade erótica que traz excitação para o casamento”.
Em resumo, tudo é uma questão de ajustar o foco, de tirar a satisfação sexual do fim da lista de prioridades e dedicar a ela a mesma atenção que dispensamos a outros aspectos do relacionamento. Parece cansativo investir no desejo sexual depois de um dia de trabalho puxado? Parece, mas não é. Na verdade, pode ser mais simples, divertido e gostoso do que a gente imagina.

SEM PRECONCEITOS

Antes de colocar em prática as sugestões dos especialistas é preciso questionar e até desconstruir algumas de nossas crenças, atitudes e preconceitos em relação ao sexo.
Desde cedo, mulheres e homens aprendem várias estratégias de conquista. “Mas pouca gente considera o interesse sexual um aspecto importante na manutenção do casamento”, diz Ana. O que importa, segundo a maioria dos casais, é investir na convivência harmoniosa, nos filhos, na casa própria, no carro e na mobília novos. O resultado é que o “caçador” vai perdendo a “pegada” e termina adormecendo diante da tevê após o jantar, enquanto ela, tão sedutora antes do casamento, pára de investir nos jogos eróticos que tanto excitavam o namorado. E daí é inevitável: sem clima o tesão vai embora.
Por mais que as mulheres tenham dificuldade em aceitar, sexo e amor são coisas distintas, e a diferença não é apenas prática – faz parte de nossa estrutura cerebral. “Sexo é excitação”, resume o neurofisiologista Martin Raimar Portner (RS). “O comportamento sexual é influenciado pela dopamina, neurotransmissor relacionado à área cerebral responsável pela satisfação e pelo prazer. Já o amor, como sinônimo de cuidado, confiança e proteção, é regido pela oxitocina, neurotransmissor ligado, entre outras coisas, à produção de leite materno.” Segundo Martin – que é pós-graduado em Ciências Neurológicas pela Universidade de Oxford, pesquisador da sexualidade masculina e autor de A senha da virilidade (ed. Age) e Inteligência sexual (ed. Gente) – o que desperta o amor do outro não estimula necessariamente o desejo sexual nele. “A confusão que se estabeleceu entre os dois conceitos, na cabeça das mulheres, é de origem cultural.”

ESPAÇO DOS AMANTES

Acontece com freqüência: “Eles eram amantes selvagens até nascerem os filhos. Daí ele vira pai, ela vira mãe e os novos papéis levam o casal a trocar o tesão por inibições e preconceitos. O sexo excitante começa a perder a graça”, observa Esther Perel. É fundamental perceber que a função de esposa e mãe, como a de marido e pai, invade o espaço dos amantes. Separem as coisas, deixem os papéis pendurados no cabide do lado de fora do quarto e divirtam-se sem culpa. O fato de vocês serem amantes ardentes não os transformará em pais irresponsáveis.
Muitos adultos buscam na relação amorosa, inconscientemente, a mesma segurança que experimentaram no útero materno e lhes foi tirada no nascimento, deixando no lugar uma sensação de desamparo. “Basta a relação do casal tornar-se íntima demais para que cada um comece a depositar no outro a expectativa de ter suas carências supridas – o que é uma grande ilusão. É a famosa dependência emocional, que transforma um no filho do outro e que vai dessexualizando a relação”, observa a psicanalista Regina Navarro Lins, autora de Cama na varanda e Na cabeceira da cama, além da coleção Amores Comparados (todos da editora Best Seller). Esther Perel faz uma síntese: “Desejo você quando sinto que não precisa de mim”.

TRAMAS ERÓTICAS

Depois de se livrar das crenças e culpas que sabotam o desejo, é hora de agir, de “botar a mão na massa”. Veja como algumas atitudes simples podem fazer a diferença:
SEJA FEMININA. Se no dia-a-dia sua tendência é ser mandona, saiba que um comportamento autoritário pode esfriar a iniciativa sexual do homem. Lembre-se de que isso não tem a ver com machismo, mas com a natureza sexual do homem (e da mulher) desde que o mundo é mundo. Não estamos falando de direitos iguais ou de ser politicamente correto, mas de sexo 100% puro. “No jogo sexual, geralmente o homem dá o tom e a mulher se deixa conduzir, o que nada tem a ver com passividade”, diz o neurofisiologista Martin Portner. “Isso porque, enquanto ele dá a direção, ela provoca, seduz, fala coisas sexuais no ouvido dele. Ela é co-autora dessa dança erótica.” Temporariamente, nos jogos de alcova, o macho pode ‘liberar’ sua fêmea para também mandar, afirma Martin. “Ele não teme ceder a ela a ‘liderança’. Ela o olha com fúria e pede para ser penetrada depois que ele a excitou de todas as formas.” Parece primitivo? E é. Essa é a graça. Que mulher não gosta de ter as roupas rasgadas e de ver tesão nos olhos do homem que a deseja com loucura?
Para despertar esse desejo instintivo, você precisa ser feminina, aceitar sem receio esses ‘personagens’ sexuais e entender que o sexo é uma brincadeira. Como escreve Esther Perel em seu livro: “O desejo sexual não obedece às leis que mantêm a paz e a satisfação entre os parceiros, como razão, compreensão, compaixão e camaradagem, elementos que favorecem uma relação harmoniosa. O sexo muitas vezes evoca antes obsessão irracional do que discernimento atencioso”. Essa você pode e deve mostrar ao seu marido. Para que esse jogo a dois aconteça apenas no terreno sexual e não afete o relacionamento cotidiano, a mulher precisa ter certeza de que o ‘poder’ do macho, sua determinação em ‘mandar’, a forma como ele a sujeita, acontecem só na cama. “O macho ‘com pedigree’ sabe disso e fora da cama é um cavalheiro. Trata a mulher com atenção e cuidado”, ressalta Martin Portner.
JAMAIS ABRA MÃO DOS AMIGOS E DAS ATIVIDADES QUE VOCÊ TINHA ANTES DO CASAMENTO PARA AGRADAR AO PARCEIRO. Fazer isso é assinar o atestado de óbito do desejo sexual que ele tem por você. “É difícil se sentir atraído por alguém que perdeu sua autonomia”, diz Esther Perel. “Talvez ele possa amá-la, mas é nitidamente mais difícil para ele desejá-la. Não há tensão.” Na opinião de Regina Navarro Lins, é preciso abandonar a idéia de que o casamento é uma espécie de fusão de almas. “Cada pessoa é uma pessoa. O respeito pela individualidade do outro é que mantém a incerteza saudável que alimenta o desejo sexual de ambos e torna a convivência mais rica”, afirma.

TRAGAM O NOVO PARA A RELAÇÃO

“A novidade, por mais insignificante que pareça, serve para manter o desejo (o seu e o dele) aceso”, ensina Ana Canosa. Transar em lugares diferentes é uma delas. É madrugada e vocês estão no elevador? Sussurre coisas provocantes no ouvido dele. Se não puderem transar ali mesmo , ao menos criem um clima. E como sugere Esther Perel: “Encontrem outras superfícies na casa que não a cama”. E que tal m curso de sexo tântrico, ou mesmo uma transa a três? Você acha que não vão segurar a barra emocional de encarar uma troca de casais? Ora, nada impede que vocês visitem ma casa de swing e fiquem só olhando. “O sexo a três e as casas de swing estão crescendo. Fiquei impressionada com o número de e-mails que recebi em resposta a uma pesquisa que fiz com 1.600 homens e mulheres casados para saber se gostariam de experimentar essas práticas. Mais de 80% disseram que sim. Haverá grande transformações na área do amor e do sexo nos próximos anos e, ao que tudo indica, o pacto de exclusividade sexual tende a acabar”, arrisca Regina Navarro Lins.

SEJAM MAIS INSTINTIVOS E MENOS CIVILIZADOS QUANDO ESTÃO TRANSANDO

“Na cama o comando deve ser do corpo, do desejo e não da mente crítica que nos enche de inibições” diz Ana Canosa. “Quando deixamos nossos ‘bichos’ interiores assumirem o controle, o sexo fica muito mais vivo”, reforça o neurologista Martins Portner. Nunca se masturbou para ele ver? Pois faça isso provocando, olhando nos olhos e gemendo baixinho. “Já disse ‘me fode gostoso, meu homem’? Não? O que está esperando?, pergunta Portner. O marido está no banho e você ficou com tesão? Então entre no box de roupa e tudo e faça um strip-tease no chuveiro. “Se permita sentir desejo e deixe-se levar por ele”, instiga Ana Canosa. E procure não cortar as iniciativas do seu marido com frases do tipo: “Agora não dá, estou fazendo o almoço”, ou “não estraga meu cabelo” ou “aqui não vai manchar o sofá”. “Esses ‘nãos’ afugentam o ‘bicho’ que mora nele – e em você -, finaliza a psicóloga.

SE POSSÍVEL, NÃO DURMAM JUNTOS

No início do casamento os casais adoram dormir abraçados, de conchinha. Com o tempo, a previsibilidade de deitar lado a lado – o que muitas vezes acaba levando a um sexo automático e obrigatório, quando um está excitado e o outro não – dá para ser resolvida com quartos separados. Pense em como pode ser excitante entrar no quarto dele de surpresa ou vice-versa. E, se usarem a imaginação, ainda podem criar várias fantasias em cima disso. Como a do desconhecido ou da desconhecida que entra no quarto e…

SINAIS DE QUE O EROTISMO ESTÁ CORRENDO PERIGO

Freqüência Funciona como termômetro do erotismo. Embora varie de casal para casal, duas ou três relações por semana indicam que o desejo entre vocês está em níveis elevados. “Se a freqüência cair para menos de uma vez por semana, atenção! Algo pode estar comprometendo o erotismo”, diz o neurofisiologista Martin Portner.

Beijo na boca Se os beijos de língua continuam sendo deliciosos e freqüentes, se vocês ainda curtem aqueles ‘malhos’ intensos e excitantes, mesmo de roupa, isso é um sinal de que as coisas vão muitíssimo bem entre vocês. “A ausência desses carinhos sexuais pode ser um alerta importante”, avisa a psicóloga Ana Canosa.

Apelidos Chamar o marido de ‘pai’ ou a esposa de ‘mãe’ depois do nascimento dos filhos não faz nada bem ao tesão, afirma a terapeuta sexual Ana Canosa. Por outro lado, utilizar apelidos com conotação erótica, que despertam a libido, indicam que o desejo de um pelo outro continua vivo e em alta na relação do casal.

Brincadeiras Na verdade, o sexo começa antes das preliminares. Casais sintonizados no desejo costumam fazer muitas brincadeiras eróticas ao longo do dia, como passar a mão, dar tapinhas no bumbum, dizer coisas sensuais um para o outro. Segundo Portner, a falta dessas brincadeiras pode indicar a domesticação do desejo.

Conversa Os assuntos se resumem aos problemas da casa e da profissão? Isso é um mau sinal, diz Ana Canosa. Casais erotizados conversam sobre sexo nos intervalos das relações. “Falam de suas fantasias, fazem comentários sobre ‘ontem à noite’. A ausência de temas sexuais pode indicar o declínio erótico do casal”, observa Martin Portner.

Preliminares Elas dão o start para uma relação sexual intensa. Valem palavras insinuantes, carícias, provocações… Conforme diz Martin Portner: “Se o tempo das preliminares está diminuindo ou elas nem acontecem mais, é indicativo de que falta vontade de estimular o parceiro e de que a libido anda domesticada”.

SEXO NA CABEÇA – 15 MITOS EM XEQUE

Beijo na boca, zonas erógenas, orgasmo, menopausa: especialistas esclarecem 15 mitos sexuais e traçam um novo mapa da libido. O ponto G e o tamanho do pênis perdem destaque. Os médicos afirmam que o cérebro é o órgão sexual mais importante da espécie e que o prazer começa na cabeça.

Por Beth Veloso

Quinze mitos sexuais foram submetidos à avaliação de quatro especialistas. Eles negaram, confirmaram ou relativizaram idéias que influenciam o comportamento dos casais. Participaram dessa análise a sexóloga Mabel Cavalcanti, também diretora do Centro de Sexologia de Brasília e do Instituto de Terapia e Pesquisas Clínicas e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana; o ginecologista e especialista em reprodução humana Adelino Amaral; o psicólogo e sexólogo Alexandre Marques; e o médico, sexólogo e antropólogo Ricardo Cavalcanti, também secretário da Associação Mundial de Sexologia.

1 – Homem gosta mais de sexo do que mulher. Ele não agüenta ficar sem relações sexuais por muito tempo, precisa transar

Falso
Historicamente, esse falso argumento foi usado para justificar a prostituição e a infidelidade masculina. As necessidades sexuais de homens e mulheres são as mesmas. Ambos produzem hormônios responsáveis pelo desejo sexual.
“Sempre fui bem ativo sexualmente, namorei muito, casei com 26 anos, tive quatro filhos. Mas sou militar e, em várias fases da minha vida, vivi num regime de semi-internato, tive que controlar o meu desejo e controlei. Em 88, passei quatro meses longe da minha mulher, num curso em que a gente era levado ao extremo da exaustão física e mental. Passava fome, frio, sede, ficava sem dormir. Na época, eu tinha 35 anos. Estava em pleno vigor sexual e sonhava com sexo. Mas nada que me deixasse louco. Talvez, se a situação perdurasse, eu simplesmente apelasse para a masturbação.”

Joel Ferreira Pedreira, 47 anos,
militar da reserva, publicitário, casado

“Para mim, sexo é só começar. Comecei a transar aos 15 anos e tive uma gravidez na adolescência que me traumatizou. Com o tempo, e também com a masturbação, fui me soltando e me conhecendo mais. Já fiz o Kama Sutra inteiro. Acho que as mulheres gostam até mais de sexo do que os homens, porque estão buscando mais prazer e uma qualidade de vida melhor. Hoje, namoro uma pessoa que tem o dobro da minha idade, já vivemos muitas fantasias juntos. Algumas pessoas já me disseram que eu sou fogo. Acho que sou apenas receptiva.”

H.F., 26 anos,
estudante, solteira

2 – Quem tem vida sexual ativa costuma ser mais tolerante com tudo e todos

Falso
O prazer sexual libera endorfina, substância responsável pela sensação de bem-estar, mas não torna ninguém mais tolerante. Pessoas sexualmente ativas também podem ser agressivas ou desagradáveis no convívio social.

3 – Quando um homem está interessado demais em uma mulher, ele corre mais riscos de falhar na hora H

Verdadeiro
Essa situação pode gerar muita ansiedade, o que inibiria a ação dos neurotransmissores, que, entre mil outras funções, carregam as substâncias que desencadeiam a ereção.

“Foi amor à primeira vista. Estava na loja de um amigo quando ela entrou, com um bebê no colo. Na hora, disse para mim mesmo: ‘Vou me casar com essa mulher’. E não foram os olhos verdes nem os cabelos loiros que me chamaram a atenção. Foi a ternura com que ela olhava para a filha. Felizmente, ela não era casada. Consegui armar um encontro para ver uma exposição e depois saímos de novo no outro final de semana, mas não rolou nada. Nem um único beijo. Eu fui devagar porque tinha medo de ser repelido. Um mês e meio depois, fomos a uma festa de réveillon e nos beijamos pela primeira vez. Foi tão forte que não tive dúvidas: eu a pedi em casamento. Ela tomou um susto. Ficou de pensar. No outro dia, sem pregar o olho, bati na casa dela. Ela estava dormindo e eu estava muito ansioso para ficar com ela, só que na hora H não deu. A loucura era tanta que não consegui. Sem graça, apelei para o clássico ‘Isso nunca aconteceu comigo’. Ela deu gargalhadas, mas não me esnobou. Só consegui me redimir dois dias depois, quando ela finalmente me disse ‘Sim’. Aí foi um deus-nos-acuda. Estamos casados há oito anos.”

J.A.N., 45 anos,
artista plástico, casado

4 – Mulher que está muito tempo sem transar fica nervosa

Falso
A falta de relações não altera diretamente o humor. O que pode afetar o bem-estar e, por decorrência, o humor da mulher é ela receber muitos estímulos sexuais e não chegar ao orgasmo.

5 – O tamanho do pênis é decisivo para o orgasmo feminino

Falso
O pênis, que tem em média 14 centímetros, se adapta a qualquer tipo de vagina. Cientificamente, nada comprova o mito do “bem-dotado”. Ele pode mexer com as fantasias, mas, do ponto de vista fisiológico, a região responsável pelo prazer feminino é a porta de entrada da vagina, onde se situa o clitóris. E para o orgasmo das mulheres contam muito as carícias, o toque, a conversa e o envolvimento. O que importa não é o tamanho do pênis, mas tudo o que o homem faz.

“Quem dá importância para o tamanho do pênis é o homem, não a mulher. Meu ex-marido tinha o pênis maior do que o de todos os namorados que já tive. Na hora de transar, dependendo da posição, eu sentia dor. Para não quebrar o clima, eu agüentava e tentava contornar a situação, me movimentando. Mas isso acabava tirando a minha espontaneidade e a concentração, eu comecei a ficar ansiosa na cama, o que prejudicou a relação.”

E.M.V., 32 anos,
publicitária, separada

6 – Quem não tem vida sexual pode sublimar e desviar a energia para outras áreas, como trabalho, atividades criativas ou religiosas

Verdadeiro
Foi a Psicanálise que definiu a sublimação, um mecanismo de readaptação, ou de defesa, em que a energia sexual é canalizada para outros interesses. A Sexologia não sabe explicar por que algumas pessoas sublimam e outras não.

“Com seis meses de gestação, descobri que meu marido tinha outra. A amante era minha amiga. Nos separamos quando minha filha tinha três meses. Ficamos quase seis anos separados, mas casamos de novo no ano retrasado. Nesse período, eu saí com várias pessoas, mas não tive relação sexual com ninguém. Desviei a atenção para a minha filha e o trabalho. Apesar de infeliz, não me tornei uma pessoa revoltada nem me descuidei. Continuei atraente e bonita. Mas acho que a aproximação com Deus, o desenvolvimento espiritual foi fundamental para preencher o vazio que ficou em mim. A capacidade de perdoar me ajudou a não transferir minha decepção para minha filha. O convívio dela com o pai era perfeito. Fiz um trabalho de cura interior e isso me deu serenidade. Sempre fui uma mulher fogosa, mas, apesar de estar sem sexo, não sentia falta. E, quando vinha a vontade, eu orava. No dia em que voltei a namorar meu marido, foi uma loucura. Não posso encostar nele que tudo pega fogo. Estamos tirando o atraso.”

C.F., 37 anos,
jornalista, casada

7 – Vagina estreita dá mais prazer ao homem

Depende
Quanto maior a fricção, maior o estímulo que o homem recebe. É por isso que o sexo anal é quase uma unanimidade entre eles. Mas não se pode reduzir o sexo a um atrito genital. O prazer envolve uma química mais complexa, outras partes do corpo, fantasia e intimidade.

8 – A mulher precisa de carícias preliminares para ficar excitada, o homem não

Verdadeiro
Desde pequena, a mulher aprendeu a ser beijada e acariciada, e isso gerou nela uma complexidade sexual. Já os homens, por conta da criação, acabaram concentrando o prazer no órgão genital. Eles se excitam rapidamente apenas com estímulos visuais, como uma mulher nua. O que não quer dizer que o homem também não goste de carinho.

“Sexo para mim envolve todos os sentidos. É importante a capacidade de fantasiar da mulher. O objetivo sem dúvida é a penetração. Mas eu sempre me excitei de várias formas. Morei na França e fui casado com duas francesas. Achava extremamente excitante ouvir gemidos e palavras em outra língua. Sinto prazer em dar prazer à mulher. Também gosto de ser passivo, de ser surpreendido. Acho que sexo tem que ter suspense. Me excita a expectativa do toque, a conversa. Um bom amante é sensível e não tem pressa. Quem dedica mais tempo ao sexo faz melhor.”

Adalúcio Espíndola, 39 anos,
publicitário, separado

9 – Fracassos profissionais e falta de dinheiro afetam a vida sexual do homem

Verdadeiro
Qualquer nível de preocupação ou de abalo na auto-estima afeta a libido, por razões fisiológicas e psicológicas.

“Passei seis meses desempregado e nessa época não conseguia transar. Eu tinha um bom emprego, uma vida financeira razoável e de repente perdi tudo. Tinha que pagar aluguel e sustentar três crianças. Minha auto-estima diminuiu e a libido também. Não admitia sentir prazer. Não era impotência, organicamente estava tudo bem. Era uma espécie de autopenitência. A minha mulher era compreensiva, mas eu me sentia culpado. Eu me isolei, tinha medo de abrir o diálogo e virem as cobranças. Só depois que passei a administrar melhor a situação é que a vida voltou ao normal e o sexo também.”

Giovanni Gaiotti Dias, 36 anos,
autônomo, casado

10 – Mulher não gosta de praticar sexo anal. Quando aceita fazer, é para dar prazer ao homem

Depende
A maioria das mulheres se sente agredida com o sexo anal, por vários motivos: o ânus não tem lubrificação e a penetração pode causar dor; em torno dessa prática há o tabu da homossexualidade e também culpa, porque se aprende que o lugar adequado é a vagina. Mas muitas mulheres têm prazer dessa forma. O segredo está na capacidade de relaxar e entregar-se. O esfíncter, músculo do ânus, dificulta a penetração se contraído, mas, por ser uma mucosa, assim como a boca e a vagina, ele também é sensível a estímulos. “Sou casada há nove anos, meu marido sempre me pediu para fazer sexo anal e eu não queria. Há dois anos, numa conversa entre amigas, uma delas disse que faria se o marido pedisse, porque senão ele iria procurar na rua. Isso me fez refletir e decidi experimentar. Como sou médica, não tinha medos em relação à saúde. Na primeira vez, senti desconforto. Já meu marido teve um prazer alucinante. Com o tempo eu fui aprendendo, descobrindo a melhor posição para relaxar. Adotamos preservativo e lubrificantes e sempre havia muitas carícias preliminares. Minha mudança em relação ao meu papel foi decisiva para que eu passasse a gostar. Antes eu achava que era uma coisa egoísta dele, que ele estava querendo me usar. A partir do momento em que passei a pensar que eu era capaz de estimulá-lo a ponto de ele me desejar tanto, fiquei mais solta e passei a ver o sexo anal como outra forma de prazer. Eu acho que isso alimenta a fantasia masculina, dá a ilusão de dominação do macho sobre a fêmea. Mas acho que essa variante tem que entrar como um tempero na relação, não como uma rotina. Se for habitual, acaba perdendo a graça.”

M.P., 32 anos,
médica, casada

11 – O beijo na boca é mais excitante para a mulher do que para o homem

Falso
O beijo é excitante para os dois. A boca é uma mucosa, tecido sensível a estímulos. Mas o significado do beijo é cultural. Para alguns povos, beijar com o nariz é excitante. Para os russos, o beijo rápido entre homens é só um cumprimento.

12 – Dá para ver quem teve uma boa noite de sexo: a pele melhora e o olho brilha

Depende
O sexo mobiliza os sistemas nervoso, endócrino e muscular, liberando substâncias agradáveis no corpo. O bem-estar se reflete na fisionomia. Mas uma longa noite de amor pode render, além de euforia, cansaço e olheiras profundas. Assim como um semblante radiante pode ser apenas fruto de uma boa noite de sono.

13 – A mulher perde o desejo na menopausa

Falso
Menopausa nada mais é do que a parada da função reprodutiva. A diminuição dos hormônios sexuais determina várias alterações, mas a libido permanece. As oscilações de humor ou falta de lubrificação vaginal têm soluções simples, nos consultórios ginecológicos, com a reposição hormonal. Quem pode vir a decretar a morte do desejo, nessa fase, é o subconsciente. O problema só surge quando a mulher associa menopausa à velhice e deixa de se sentir desejável.

“Casei-me com dois italianos, aos 18 anos e aos 40 anos, e tive vários relacionamentos. Hoje, aos 51 anos, me sinto totalmente potente. Tenho um namorado com 54 anos e temos relações até quatro vezes por semana. Este ano, no meu aniversário, transamos à beira de um lago, no carro, em um belo domingo de sol. Mas já passei por períodos difíceis. Quando tinha 47 anos, estava terminando meu doutorado na França e tive alguns problemas ginecológicos. Acho que era o início da menopausa. Além dos estudos, tinha que cuidar sozinha de três filhos, parei de fazer exercícios e engordei oito quilos. Perdi a auto-estima. Na verdade, tenho todos os elementos para ser impotente e obesa. Já fiz oito cirurgias, incluindo uma de mama, a retirada do útero e dos ovários, e tenho problemas na tireóide. Mas para mim o que comanda o apetite sexual é a auto-estima. Eu não vou parar nunca. Sou normal, as pessoas que não sentem desejo é que não são.”
L.R., 51 anos,
cientista política, separada

14 – O homem é responsável pelo prazer feminino

Falso
Cada um é responsável pelo próprio prazer e pela capacidade de partilhar esse prazer com o outro. Por trás desse mito está a mentalidade machista de homens e de mulheres. A mulher fica alheia ao seu prazer quando o coloca na mão do parceiro. E o homem alimenta a vaidade ao se iludir que é o dono do prazer feminino.

“Gozei pela primeira vez aos 27 anos e só depois de oito anos de casamento. Fiquei encantada e passei a gostar de sexo. Se eu não tivesse ido à luta em busca do meu próprio prazer, estaria infeliz e talvez separada. Me casei com o primeiro namorado aos 19 anos, ele tinha 22, éramos inexperientes. Na hora do sexo, era tudo muito rápido. Ele me beijava, penetrava e gozava. Eu não queria transar, ele me pressionava, a gente brigava. Comecei a conversar com minhas amigas e passei a ler muito sobre sexo.A partir daí comecei a pedir: eu queria ser mais beijada, tocada. Até que propus o sexo oral e tive meu primeiro orgasmo. Se a mulher não disser ao parceiro do que ela gosta, ele não tem como adivinhar.”

S.N., 32 anos,
decoradora, casada

15 – Orgasmo vaginal é muito raro. A mulher só atinge o clímax se for tocada no clitóris

Falso
Fisiologicamente, não existem dois orgasmos, o vaginal e o clitoriano. Orgasmo é a sensação de prazer e está na cabeça. O cérebro é o órgão sexual mais importante do ser humano. A Medicina ainda não identificou todos os centros cerebrais que dirigem a atividade sexual, mas sabe-se que um grupo de gânglios da zona preótica, no hipotálamo, é responsável por deflagrar o mecanismo sexual. Parece complicado, mas o processo, além de simples, é automático. A intensidade do prazer depende não da modalidade de sexo, mas do nível de excitação e relaxamento. Uma mulher pode ficar extremamente excitada com uma mordida no lóbulo da orelha e assim chegar ao orgasmo. O clitóris, pela quantidade de terminações nervosas, é a região de maior sensibilidade. Mas uma mulher tensa e ansiosa, mesmo se manipulada diretamente, pode bloquear a sensação de prazer. Segundo os sexólogos, tanto o orgasmo vaginal, descrito por Freud, quanto o famoso ponto G, no interior da vagina, são mitos que não se sustentam cientificamente.

Revista Marie Claire

Ilustrações: reprodução

Agradecimentos: Comix Book Shop

Outubro de 2000.

ADOLESCÊNCIA – “Defina o Jogo”

Eles dirigem sem carteira, muitas vezes em alta velocidade, freqüentam discotecas e bares até de madrugada. Imaturos, abusam da bebida, envolvem-se em brigas e às vezes provocam acidentes sérios. O que há com nossos jovens?

Para a terapeuta Gilda Archer, do Centro de Estudos da Família, Adolescência e Infância (Cefai), no Rio, esses problemas são conseqüência direta da falta de limites. “Ao permitir que seus filhos dirijam sem carteira, os pais os expõem a situações para as quais os jovens não estão prontos. Caso ocorra um acidente, mesmo que os adultos assumam as conseqüências jurídicas, a culpa emocional vai pesar sobre o adolescente, despreparado para suportá-las.”
Ao mesmo tempo, esses pais estimulam os filhos a desobedecer à lei, a não ter limites. “Nossa sociedade costuma ser benevolente com os transgressores, mas não é assim que se aprende a viver em comunidade”, observa Gilda. “Obedecer a regulamentos desde cedo é importante para que, mais tarde, o adulto seja uma pessoa integra ao seu meio. Toda família tem suas regras: em algumas dorme-se cedo, em outras menos. Não importa. O essencial é ter regras claras. Muitas vezes, os pais delegam essa função à escola e até mesmo ao psicólogo que atende a seus filhos, o que é prejudicial. Acontece também de a família querer impor sua forma de organização a outros setores da sociedade, num abuso evidente de autoridade.”
O acidente ocorrido em Brasília com o filho do ex-ministro dos Transporte Odacir Klein, Fabricio, é bem ilustrativo. Dirigindo em alta velocidade, na companhia do pai, o jovem atropelou um pedreiro. Nenhum dos dois socorreu a vítima, que acabou morrendo. Em sua sentença, a juíza Maria Leonor Leiko Aguena determinou que o rapaz não poderá dirigir por dois anos, terá de pagar 24 cestas básicas a uma entidade filantrópica e também indenizar a família do operário. Ou seja, praticamente não será punido, já que as indenizações serão pagas pelos pais. Numa decisão surpreendente, a juíza considerou também que não houve omissão de socorro, já que a vítima morreu no local.
No Rio de Janeiro, o pai do estudante Gabriel Pinto Cardoso, 18 anos, demostrou que também se considera acima da lei; em companhia da mulher e do filho, agrediu fisicamente o diretor do colégio que reprovou seu filho. O rapaz perdera aulas e provas por ser atleta, lutador de judô. Gilda Archer observa que, neste caso, os pais incorreram num erro muito comum: não souberam ensinar o filho a fazer escolhas e arcar com as conseqüências.
“Ser atleta e bom aluno é impossível. Neste caso, teria sido melhor procurar outra escola, por exemplo. No cerne da questão está um dos maiores problemas dos pais: eles não suportam ver seus filhos frustados. Por conta disso, e também por comodismo, acabam deixando que façam o que querem. É preciso aprender a negociar”, aconselha a terapeuta. “Esta é uma tarefa que exige paciência. Mas é indispensável para a formação deles.”
“A liberdade deve ser conquistada aos poucos, à medida que os pais adquirem maior confiança no filho. Não há mal em admitir que se sentem preocupados em deixá-lo até tarde na rua e que precisam de um tempo para se adaptarem à nova realidade”, diz.
Outra questão complicada de resolver e, sobretudo, de manter, são as punições. Gida lembra que é inútil determinar castigos impossíveis de serem cumpridos como, por exemplo, um mês sem ver televisão, no caso de uma criança, ou o mesmo período sem estar com os amigos, se for um adolescente. “A punição tem o único objetivo de criar pessoas responsáveis e deve estar à altura da capacidade de compreensão da criança ou do jovem. Ela ajuda a estabelecer, também, uma censura interna indispensável. Caso contrário, estaremos abrindo caminho para a formação de adultos completamente sem limites, que desrespeitam tudo e todos sem que se sintam nem um pouco culpados.”

SUPERPROTEÇÃO, ERRO COMUM

No dia-a-dia da 1a Vara da Infância e Adolescência, no Rio, o juiz Siro Darlan está acostumado a ouvir um sem-número de justificativas por parte dos pais para o abandono de seus filhos. ‘Não tenho controle sobre ele’, ou ‘como vou saber onde ele está?’ são algumas das desculpas mais comuns.
“Chamamos esses pais de ‘pais Pilatos’, por que eles sempre lavam as mãos. À noite, nas discotecas, os adolescentes ficam expostos a situações para as quais não estão maduros”, lembra o juíz.
Siro Darlan considera que um dos principais problemas é a superproteção dos pais em relação a seus filhos. “Quando um menino da favela avança os limites com uma menina, considera-se que houve estupro. O mesmo fato pode ser visto como ‘exercício de virilidade’, caso o jovem seja de classe média. Para mudar esse quadro, é preciso que a sociedade se mobilize. A justiça só pode agir paliativamente”, afirma.
O juíz lembra que não é contra o lazer dos jovens. “Sou favorável, por exemplo, à participação de crianças no desfile das escolas de samba, que é uma festa cultural. É uma maneira de estimulá-las a participar da cultura de seu país. Isso é muito diferente de permitir que adolescente freqüentem sozinhos bailes funk e discotecas”, ressalva.

DIFÍCIL EQUILÍBRIO

O rigor com que muitos pais foram criados pode ser um dos responsáveis pela liberalidade excessiva de hoje, na opinião da psicopedagoga Vilma Freire do Amaral.
“Como tiveram uma educação severa, os pais decidiram educar seus filhos de modo diferente. Mas acabaram perdidos: deram liberdade demais e responsabilidade de menos.”
Para agradar os filhos ou compensar eventuais carências, muitos presenteiam de forma exagerada, ainda que para isso precisem sacrificar o orçamento. O resultado são crianças insatisfeitas, que cada vez querem mais.
“Esses jovens nunca terão o prazer de desfrutar de alguma coisa longamente esperada. Quando crescem, transformam-se em adultos que não sabem lutar pelo que querem e, diante de qualquer adversidade, sentem-se derrotados. Alguns ficam à margem da vida, que lhes parece desprovida de graça. Muitas vezes, buscam um pouco de emoção nas drogas”, lembra a especialista.
A socióloga Moema Toscano considera que é preciso fazer um exame de consciência para ver se a responsabilidade de educar não está sendo muito deixada de lado. “O respeito às regras e às leis é fundamental. É preciso que os pais retomem as rédeas da situação, definindo limites e parâmetros mínimos de comportamento. Precisamos tomar providências para que nossos filhos tenham uma juventude mais sadia”, conclui.

OBS: Deixar que os filhos façam tudo o que desejam acaba transformando-os em jovens eternamente insatisfeitos e até inseguros. Dar limites significa, também, proteger. E, sobretudo, formar adultos adaptados ao seu meio, que sabem conviver com regras e restrições, inerentes à vida de qualquer pessoa.

Dalva Ventura e Liana Fortes

AFINAL, QUEM SOMO NÓS?

Quem somos nós que nos arvoramos de juizes implacáveis quando avaliamos os outros e somos tão benevolentes com as nossas limitações, fraquezas e erros?
Quem somos nós que nos julgamos tão fortes quando temos que nos posicionar diante da sociedade em que vivemos, quando na verdade nem sequer temos coragem de enfrentar a nós mesmos, nossa consciência, nossas verdades íntimas?
Quem somos nós que esperamos tanto pelo carinho, pelo afeto, pela compreensão; que reclamamos tanto de falta de atenção, quando nunca nos preocupamos em compreender os outros, suas necessidades, suas carências?
Quem somos nós que compramos quase tudo, que negociamos os preços, que reclamamos dos custos, quando na verdade preferimos muito mais pagar, do que conquistar, construir, descobrir, fazer? Quem somos nós que desejamos ser aceitos, respeitados e acreditados; mas que quase nunca confiamos, entendemos e verdadeiramente nos preocupamos com o que está se passando com quem convivemos?
Quem somos nós que nos consideramos tão sábios e inteligentes, tão capazes e preparados e não damos conta de orientar nossos filhos, nossa família, nossos amigos?
Quem somos nós que nos percebemos criativos e inovadores e vivemos praticando e defendendo os mesmos valores e tradições de uma época onde o conhecimento não era tão amplo e democrático?
Quem somos nós, construtores de teses brilhantes, mas que nem sequer temos um plano pessoal e consistente?
Quem somos nós que buscamos tanto evidenciar a melhora da aparência e não cuidamos quase nada do nosso eu interior? Que nos julgamos donos de tudo e nem propriedade da gente mesmo temos? Quem somos nós que vivemos pedindo e reclamando e nunca nos lembramos de agradecer e apreciar as maravilhas que nos são constantemente proporcionadas?
Afinal, quem somos nós?
Que podemos ser quase tudo e nos conformamos em não ser quase nada…

Celso Machado