SEXO NA CABEÇA – 15 MITOS EM XEQUE

Beijo na boca, zonas erógenas, orgasmo, menopausa: especialistas esclarecem 15 mitos sexuais e traçam um novo mapa da libido. O ponto G e o tamanho do pênis perdem destaque. Os médicos afirmam que o cérebro é o órgão sexual mais importante da espécie e que o prazer começa na cabeça.

Por Beth Veloso

Quinze mitos sexuais foram submetidos à avaliação de quatro especialistas. Eles negaram, confirmaram ou relativizaram idéias que influenciam o comportamento dos casais. Participaram dessa análise a sexóloga Mabel Cavalcanti, também diretora do Centro de Sexologia de Brasília e do Instituto de Terapia e Pesquisas Clínicas e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana; o ginecologista e especialista em reprodução humana Adelino Amaral; o psicólogo e sexólogo Alexandre Marques; e o médico, sexólogo e antropólogo Ricardo Cavalcanti, também secretário da Associação Mundial de Sexologia.

1 – Homem gosta mais de sexo do que mulher. Ele não agüenta ficar sem relações sexuais por muito tempo, precisa transar

Falso
Historicamente, esse falso argumento foi usado para justificar a prostituição e a infidelidade masculina. As necessidades sexuais de homens e mulheres são as mesmas. Ambos produzem hormônios responsáveis pelo desejo sexual.
“Sempre fui bem ativo sexualmente, namorei muito, casei com 26 anos, tive quatro filhos. Mas sou militar e, em várias fases da minha vida, vivi num regime de semi-internato, tive que controlar o meu desejo e controlei. Em 88, passei quatro meses longe da minha mulher, num curso em que a gente era levado ao extremo da exaustão física e mental. Passava fome, frio, sede, ficava sem dormir. Na época, eu tinha 35 anos. Estava em pleno vigor sexual e sonhava com sexo. Mas nada que me deixasse louco. Talvez, se a situação perdurasse, eu simplesmente apelasse para a masturbação.”

Joel Ferreira Pedreira, 47 anos,
militar da reserva, publicitário, casado

“Para mim, sexo é só começar. Comecei a transar aos 15 anos e tive uma gravidez na adolescência que me traumatizou. Com o tempo, e também com a masturbação, fui me soltando e me conhecendo mais. Já fiz o Kama Sutra inteiro. Acho que as mulheres gostam até mais de sexo do que os homens, porque estão buscando mais prazer e uma qualidade de vida melhor. Hoje, namoro uma pessoa que tem o dobro da minha idade, já vivemos muitas fantasias juntos. Algumas pessoas já me disseram que eu sou fogo. Acho que sou apenas receptiva.”

H.F., 26 anos,
estudante, solteira

2 – Quem tem vida sexual ativa costuma ser mais tolerante com tudo e todos

Falso
O prazer sexual libera endorfina, substância responsável pela sensação de bem-estar, mas não torna ninguém mais tolerante. Pessoas sexualmente ativas também podem ser agressivas ou desagradáveis no convívio social.

3 – Quando um homem está interessado demais em uma mulher, ele corre mais riscos de falhar na hora H

Verdadeiro
Essa situação pode gerar muita ansiedade, o que inibiria a ação dos neurotransmissores, que, entre mil outras funções, carregam as substâncias que desencadeiam a ereção.

“Foi amor à primeira vista. Estava na loja de um amigo quando ela entrou, com um bebê no colo. Na hora, disse para mim mesmo: ‘Vou me casar com essa mulher’. E não foram os olhos verdes nem os cabelos loiros que me chamaram a atenção. Foi a ternura com que ela olhava para a filha. Felizmente, ela não era casada. Consegui armar um encontro para ver uma exposição e depois saímos de novo no outro final de semana, mas não rolou nada. Nem um único beijo. Eu fui devagar porque tinha medo de ser repelido. Um mês e meio depois, fomos a uma festa de réveillon e nos beijamos pela primeira vez. Foi tão forte que não tive dúvidas: eu a pedi em casamento. Ela tomou um susto. Ficou de pensar. No outro dia, sem pregar o olho, bati na casa dela. Ela estava dormindo e eu estava muito ansioso para ficar com ela, só que na hora H não deu. A loucura era tanta que não consegui. Sem graça, apelei para o clássico ‘Isso nunca aconteceu comigo’. Ela deu gargalhadas, mas não me esnobou. Só consegui me redimir dois dias depois, quando ela finalmente me disse ‘Sim’. Aí foi um deus-nos-acuda. Estamos casados há oito anos.”

J.A.N., 45 anos,
artista plástico, casado

4 – Mulher que está muito tempo sem transar fica nervosa

Falso
A falta de relações não altera diretamente o humor. O que pode afetar o bem-estar e, por decorrência, o humor da mulher é ela receber muitos estímulos sexuais e não chegar ao orgasmo.

5 – O tamanho do pênis é decisivo para o orgasmo feminino

Falso
O pênis, que tem em média 14 centímetros, se adapta a qualquer tipo de vagina. Cientificamente, nada comprova o mito do “bem-dotado”. Ele pode mexer com as fantasias, mas, do ponto de vista fisiológico, a região responsável pelo prazer feminino é a porta de entrada da vagina, onde se situa o clitóris. E para o orgasmo das mulheres contam muito as carícias, o toque, a conversa e o envolvimento. O que importa não é o tamanho do pênis, mas tudo o que o homem faz.

“Quem dá importância para o tamanho do pênis é o homem, não a mulher. Meu ex-marido tinha o pênis maior do que o de todos os namorados que já tive. Na hora de transar, dependendo da posição, eu sentia dor. Para não quebrar o clima, eu agüentava e tentava contornar a situação, me movimentando. Mas isso acabava tirando a minha espontaneidade e a concentração, eu comecei a ficar ansiosa na cama, o que prejudicou a relação.”

E.M.V., 32 anos,
publicitária, separada

6 – Quem não tem vida sexual pode sublimar e desviar a energia para outras áreas, como trabalho, atividades criativas ou religiosas

Verdadeiro
Foi a Psicanálise que definiu a sublimação, um mecanismo de readaptação, ou de defesa, em que a energia sexual é canalizada para outros interesses. A Sexologia não sabe explicar por que algumas pessoas sublimam e outras não.

“Com seis meses de gestação, descobri que meu marido tinha outra. A amante era minha amiga. Nos separamos quando minha filha tinha três meses. Ficamos quase seis anos separados, mas casamos de novo no ano retrasado. Nesse período, eu saí com várias pessoas, mas não tive relação sexual com ninguém. Desviei a atenção para a minha filha e o trabalho. Apesar de infeliz, não me tornei uma pessoa revoltada nem me descuidei. Continuei atraente e bonita. Mas acho que a aproximação com Deus, o desenvolvimento espiritual foi fundamental para preencher o vazio que ficou em mim. A capacidade de perdoar me ajudou a não transferir minha decepção para minha filha. O convívio dela com o pai era perfeito. Fiz um trabalho de cura interior e isso me deu serenidade. Sempre fui uma mulher fogosa, mas, apesar de estar sem sexo, não sentia falta. E, quando vinha a vontade, eu orava. No dia em que voltei a namorar meu marido, foi uma loucura. Não posso encostar nele que tudo pega fogo. Estamos tirando o atraso.”

C.F., 37 anos,
jornalista, casada

7 – Vagina estreita dá mais prazer ao homem

Depende
Quanto maior a fricção, maior o estímulo que o homem recebe. É por isso que o sexo anal é quase uma unanimidade entre eles. Mas não se pode reduzir o sexo a um atrito genital. O prazer envolve uma química mais complexa, outras partes do corpo, fantasia e intimidade.

8 – A mulher precisa de carícias preliminares para ficar excitada, o homem não

Verdadeiro
Desde pequena, a mulher aprendeu a ser beijada e acariciada, e isso gerou nela uma complexidade sexual. Já os homens, por conta da criação, acabaram concentrando o prazer no órgão genital. Eles se excitam rapidamente apenas com estímulos visuais, como uma mulher nua. O que não quer dizer que o homem também não goste de carinho.

“Sexo para mim envolve todos os sentidos. É importante a capacidade de fantasiar da mulher. O objetivo sem dúvida é a penetração. Mas eu sempre me excitei de várias formas. Morei na França e fui casado com duas francesas. Achava extremamente excitante ouvir gemidos e palavras em outra língua. Sinto prazer em dar prazer à mulher. Também gosto de ser passivo, de ser surpreendido. Acho que sexo tem que ter suspense. Me excita a expectativa do toque, a conversa. Um bom amante é sensível e não tem pressa. Quem dedica mais tempo ao sexo faz melhor.”

Adalúcio Espíndola, 39 anos,
publicitário, separado

9 – Fracassos profissionais e falta de dinheiro afetam a vida sexual do homem

Verdadeiro
Qualquer nível de preocupação ou de abalo na auto-estima afeta a libido, por razões fisiológicas e psicológicas.

“Passei seis meses desempregado e nessa época não conseguia transar. Eu tinha um bom emprego, uma vida financeira razoável e de repente perdi tudo. Tinha que pagar aluguel e sustentar três crianças. Minha auto-estima diminuiu e a libido também. Não admitia sentir prazer. Não era impotência, organicamente estava tudo bem. Era uma espécie de autopenitência. A minha mulher era compreensiva, mas eu me sentia culpado. Eu me isolei, tinha medo de abrir o diálogo e virem as cobranças. Só depois que passei a administrar melhor a situação é que a vida voltou ao normal e o sexo também.”

Giovanni Gaiotti Dias, 36 anos,
autônomo, casado

10 – Mulher não gosta de praticar sexo anal. Quando aceita fazer, é para dar prazer ao homem

Depende
A maioria das mulheres se sente agredida com o sexo anal, por vários motivos: o ânus não tem lubrificação e a penetração pode causar dor; em torno dessa prática há o tabu da homossexualidade e também culpa, porque se aprende que o lugar adequado é a vagina. Mas muitas mulheres têm prazer dessa forma. O segredo está na capacidade de relaxar e entregar-se. O esfíncter, músculo do ânus, dificulta a penetração se contraído, mas, por ser uma mucosa, assim como a boca e a vagina, ele também é sensível a estímulos. “Sou casada há nove anos, meu marido sempre me pediu para fazer sexo anal e eu não queria. Há dois anos, numa conversa entre amigas, uma delas disse que faria se o marido pedisse, porque senão ele iria procurar na rua. Isso me fez refletir e decidi experimentar. Como sou médica, não tinha medos em relação à saúde. Na primeira vez, senti desconforto. Já meu marido teve um prazer alucinante. Com o tempo eu fui aprendendo, descobrindo a melhor posição para relaxar. Adotamos preservativo e lubrificantes e sempre havia muitas carícias preliminares. Minha mudança em relação ao meu papel foi decisiva para que eu passasse a gostar. Antes eu achava que era uma coisa egoísta dele, que ele estava querendo me usar. A partir do momento em que passei a pensar que eu era capaz de estimulá-lo a ponto de ele me desejar tanto, fiquei mais solta e passei a ver o sexo anal como outra forma de prazer. Eu acho que isso alimenta a fantasia masculina, dá a ilusão de dominação do macho sobre a fêmea. Mas acho que essa variante tem que entrar como um tempero na relação, não como uma rotina. Se for habitual, acaba perdendo a graça.”

M.P., 32 anos,
médica, casada

11 – O beijo na boca é mais excitante para a mulher do que para o homem

Falso
O beijo é excitante para os dois. A boca é uma mucosa, tecido sensível a estímulos. Mas o significado do beijo é cultural. Para alguns povos, beijar com o nariz é excitante. Para os russos, o beijo rápido entre homens é só um cumprimento.

12 – Dá para ver quem teve uma boa noite de sexo: a pele melhora e o olho brilha

Depende
O sexo mobiliza os sistemas nervoso, endócrino e muscular, liberando substâncias agradáveis no corpo. O bem-estar se reflete na fisionomia. Mas uma longa noite de amor pode render, além de euforia, cansaço e olheiras profundas. Assim como um semblante radiante pode ser apenas fruto de uma boa noite de sono.

13 – A mulher perde o desejo na menopausa

Falso
Menopausa nada mais é do que a parada da função reprodutiva. A diminuição dos hormônios sexuais determina várias alterações, mas a libido permanece. As oscilações de humor ou falta de lubrificação vaginal têm soluções simples, nos consultórios ginecológicos, com a reposição hormonal. Quem pode vir a decretar a morte do desejo, nessa fase, é o subconsciente. O problema só surge quando a mulher associa menopausa à velhice e deixa de se sentir desejável.

“Casei-me com dois italianos, aos 18 anos e aos 40 anos, e tive vários relacionamentos. Hoje, aos 51 anos, me sinto totalmente potente. Tenho um namorado com 54 anos e temos relações até quatro vezes por semana. Este ano, no meu aniversário, transamos à beira de um lago, no carro, em um belo domingo de sol. Mas já passei por períodos difíceis. Quando tinha 47 anos, estava terminando meu doutorado na França e tive alguns problemas ginecológicos. Acho que era o início da menopausa. Além dos estudos, tinha que cuidar sozinha de três filhos, parei de fazer exercícios e engordei oito quilos. Perdi a auto-estima. Na verdade, tenho todos os elementos para ser impotente e obesa. Já fiz oito cirurgias, incluindo uma de mama, a retirada do útero e dos ovários, e tenho problemas na tireóide. Mas para mim o que comanda o apetite sexual é a auto-estima. Eu não vou parar nunca. Sou normal, as pessoas que não sentem desejo é que não são.”
L.R., 51 anos,
cientista política, separada

14 – O homem é responsável pelo prazer feminino

Falso
Cada um é responsável pelo próprio prazer e pela capacidade de partilhar esse prazer com o outro. Por trás desse mito está a mentalidade machista de homens e de mulheres. A mulher fica alheia ao seu prazer quando o coloca na mão do parceiro. E o homem alimenta a vaidade ao se iludir que é o dono do prazer feminino.

“Gozei pela primeira vez aos 27 anos e só depois de oito anos de casamento. Fiquei encantada e passei a gostar de sexo. Se eu não tivesse ido à luta em busca do meu próprio prazer, estaria infeliz e talvez separada. Me casei com o primeiro namorado aos 19 anos, ele tinha 22, éramos inexperientes. Na hora do sexo, era tudo muito rápido. Ele me beijava, penetrava e gozava. Eu não queria transar, ele me pressionava, a gente brigava. Comecei a conversar com minhas amigas e passei a ler muito sobre sexo.A partir daí comecei a pedir: eu queria ser mais beijada, tocada. Até que propus o sexo oral e tive meu primeiro orgasmo. Se a mulher não disser ao parceiro do que ela gosta, ele não tem como adivinhar.”

S.N., 32 anos,
decoradora, casada

15 – Orgasmo vaginal é muito raro. A mulher só atinge o clímax se for tocada no clitóris

Falso
Fisiologicamente, não existem dois orgasmos, o vaginal e o clitoriano. Orgasmo é a sensação de prazer e está na cabeça. O cérebro é o órgão sexual mais importante do ser humano. A Medicina ainda não identificou todos os centros cerebrais que dirigem a atividade sexual, mas sabe-se que um grupo de gânglios da zona preótica, no hipotálamo, é responsável por deflagrar o mecanismo sexual. Parece complicado, mas o processo, além de simples, é automático. A intensidade do prazer depende não da modalidade de sexo, mas do nível de excitação e relaxamento. Uma mulher pode ficar extremamente excitada com uma mordida no lóbulo da orelha e assim chegar ao orgasmo. O clitóris, pela quantidade de terminações nervosas, é a região de maior sensibilidade. Mas uma mulher tensa e ansiosa, mesmo se manipulada diretamente, pode bloquear a sensação de prazer. Segundo os sexólogos, tanto o orgasmo vaginal, descrito por Freud, quanto o famoso ponto G, no interior da vagina, são mitos que não se sustentam cientificamente.

Revista Marie Claire

Ilustrações: reprodução

Agradecimentos: Comix Book Shop

Outubro de 2000.

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