Cadê o tesão que estava aqui?

No início, havia a paixão. Com o casamento, a família prosperou, o companheirismo ficou mais forte, mas a chama erótica… está se apagando. Sentiu o drama na pele? Veja como superar esse dilema comum nas relações estáveis e reacender o desejo no dia-a-dia

MARIANA VIKTOR

Letícia e Marcelo* formam um casal invejável. Os dois vivem juntos e felizes há quase 12 anos, numa relação de companheirismo, intimidade, franqueza e muito amor. Têm um filho adorável, uma linda casa, dois carros legais. Enfim, Marcelo e Letícia chegaram lá, apesar dos obstáculos que muito cedo podem destruir uma união, como a frustração de descobrir que o outro não é o príncipe ou a princesa encantada que imaginavam (típica dos primeiros anos de convivência), a rotina e os problemas do dia-a-dia, que vão azedando a relação e podem colocar um ponto final no amor.
Mas enquanto a intimidade, a cumplicidade e o amor cresciam com o passar do tempo, a vida sexual dos dois tomou rumo inverso: começou a minguar e esfriou a tal ponto que eles praticamente não transam mais. “Fico constrangida até de falar sobre isso com meu marido e não consigo entender o que houve. A verdade é que o tesão foi desaparecendo da vida da gente. Simplesmente não temos mais aquele desejo louco que marcou os primeiros anos do relacionamento”, lamenta Letícia.

SEXO PRECISA DE MISTÉRIO

A contradição vivida pelos dois é compartilhada por muitos casais felizes e reforçada pela idéia de que o sexo é conseqüência natural do amor. Como se o sexo, que já é bom na fase da paixão, fosse ainda melhor quando há cumplicidade e confiança. Não é bem assim.

“A vivência de homens e mulheres felizes em casamentos sólidos tem mostrado que a intimidade emocional pode inibir a expressão erótica”, destaca a terapeuta belga, Esther Perel, com consultório em Nova York. Em seu livro Sexo no cativeiro, recém-lançado pela editora Objetiva, Esther resume o impasse: “O amor gosta de saber tudo sobre você, já o desejo precisa de mistério. O amor gosta de encurtar a distância que existe entre você e eu, enquanto o desejo é energizado por ela. Se a intimidade cresce com a repetição e a familiaridade, o erotismo se embota com a repetição”. E ela complementa: “Amor tem a ver com ter; desejo com querer. Sendo uma manifestação de anseio, o desejo está menos interessado em onde já esteve do que em para onde ainda pode ir”.
Foi exatamente a constatação desse paradoxo que levou Esther Perel a escrever a obra, fruto de sua experiência clínica como terapeuta familiar e de casais. Em entrevista exclusiva à UMA, ela diz: “Teria sido óbvio escrever um livro sobre a perda do desejo em casais afetivamente afastados.
Contrariando nossas expectativas, o fato de que o desejo acaba entre casais felizes é que fez a resposta a este livro ser um verdadeiro fenômeno”.
Obviamente, tudo é uma questão de prioridade e temperamento. Tem gente que curte a vida familiar e não acha o sexo indispensável. Para essas pessoas o casamento tradicional pode ser muito gratificante. “Ver os filhos crescendo, curtir o aconchego do lar, a união e o companheirismo são as coisas que elas mais valorizam na relação. Tem que ser necessariamente erótico para fazer bem? Claro que não. Há lugar para todos ao sol”, pondera a psicóloga e terapeuta sexual Ana Canosa, diretora/editora da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (Sbrash).
Porém um casamento tranqüilo, com o sexo em segundo plano, é contra-indicado para quem é ávido pela excitação do movimento e do desconhecido, afirma Ana Canosa. O desafio faz parte da natureza dessas pessoas, que poderão sentir-se frustradas numa relação rotineira. “Elas não deveriam casar-se, a menos que o parceiro aceite sua natureza não-monogâmica, ou o casal terá que achar soluções para satisfazer essa sede de novidades.”
E aí surge outro paradoxo excitante: a mesma intimidade que pode extinguir o desejo também favorece a perda das inibições. Em outras palavras, saber o que desperta tesão no outro pode nos tornar mais ousados e confiantes para vivenciar nossas fantasias secretas. “Se o casal souber aproveitar esses elementos haverá um ganho considerável de qualidade erótica, porque a intimidade usada em favor dos dois pode criar pontes para novos desafios sexuais dentro da relação”, observa Ana Canosa.

O DESEJO COMO PRIORIDADE

Construir essas pontes e trilhar novos caminhos dentro de uma relação rotineira é a proposta do livro de Esther Perel: “A redução do desejo é uma conseqüência imprevista do aumento da intimidade somada à nossa falta de habilidade de conciliar as necessidades de aventura e do inesperado no mesmo lugar onde procuramos segurança e previsibilidade. E, na tentativa de criar conforto e familiaridade, enfraquecemos a vitalidade erótica que traz excitação para o casamento”.
Em resumo, tudo é uma questão de ajustar o foco, de tirar a satisfação sexual do fim da lista de prioridades e dedicar a ela a mesma atenção que dispensamos a outros aspectos do relacionamento. Parece cansativo investir no desejo sexual depois de um dia de trabalho puxado? Parece, mas não é. Na verdade, pode ser mais simples, divertido e gostoso do que a gente imagina.

SEM PRECONCEITOS

Antes de colocar em prática as sugestões dos especialistas é preciso questionar e até desconstruir algumas de nossas crenças, atitudes e preconceitos em relação ao sexo.
Desde cedo, mulheres e homens aprendem várias estratégias de conquista. “Mas pouca gente considera o interesse sexual um aspecto importante na manutenção do casamento”, diz Ana. O que importa, segundo a maioria dos casais, é investir na convivência harmoniosa, nos filhos, na casa própria, no carro e na mobília novos. O resultado é que o “caçador” vai perdendo a “pegada” e termina adormecendo diante da tevê após o jantar, enquanto ela, tão sedutora antes do casamento, pára de investir nos jogos eróticos que tanto excitavam o namorado. E daí é inevitável: sem clima o tesão vai embora.
Por mais que as mulheres tenham dificuldade em aceitar, sexo e amor são coisas distintas, e a diferença não é apenas prática – faz parte de nossa estrutura cerebral. “Sexo é excitação”, resume o neurofisiologista Martin Raimar Portner (RS). “O comportamento sexual é influenciado pela dopamina, neurotransmissor relacionado à área cerebral responsável pela satisfação e pelo prazer. Já o amor, como sinônimo de cuidado, confiança e proteção, é regido pela oxitocina, neurotransmissor ligado, entre outras coisas, à produção de leite materno.” Segundo Martin – que é pós-graduado em Ciências Neurológicas pela Universidade de Oxford, pesquisador da sexualidade masculina e autor de A senha da virilidade (ed. Age) e Inteligência sexual (ed. Gente) – o que desperta o amor do outro não estimula necessariamente o desejo sexual nele. “A confusão que se estabeleceu entre os dois conceitos, na cabeça das mulheres, é de origem cultural.”

ESPAÇO DOS AMANTES

Acontece com freqüência: “Eles eram amantes selvagens até nascerem os filhos. Daí ele vira pai, ela vira mãe e os novos papéis levam o casal a trocar o tesão por inibições e preconceitos. O sexo excitante começa a perder a graça”, observa Esther Perel. É fundamental perceber que a função de esposa e mãe, como a de marido e pai, invade o espaço dos amantes. Separem as coisas, deixem os papéis pendurados no cabide do lado de fora do quarto e divirtam-se sem culpa. O fato de vocês serem amantes ardentes não os transformará em pais irresponsáveis.
Muitos adultos buscam na relação amorosa, inconscientemente, a mesma segurança que experimentaram no útero materno e lhes foi tirada no nascimento, deixando no lugar uma sensação de desamparo. “Basta a relação do casal tornar-se íntima demais para que cada um comece a depositar no outro a expectativa de ter suas carências supridas – o que é uma grande ilusão. É a famosa dependência emocional, que transforma um no filho do outro e que vai dessexualizando a relação”, observa a psicanalista Regina Navarro Lins, autora de Cama na varanda e Na cabeceira da cama, além da coleção Amores Comparados (todos da editora Best Seller). Esther Perel faz uma síntese: “Desejo você quando sinto que não precisa de mim”.

TRAMAS ERÓTICAS

Depois de se livrar das crenças e culpas que sabotam o desejo, é hora de agir, de “botar a mão na massa”. Veja como algumas atitudes simples podem fazer a diferença:
SEJA FEMININA. Se no dia-a-dia sua tendência é ser mandona, saiba que um comportamento autoritário pode esfriar a iniciativa sexual do homem. Lembre-se de que isso não tem a ver com machismo, mas com a natureza sexual do homem (e da mulher) desde que o mundo é mundo. Não estamos falando de direitos iguais ou de ser politicamente correto, mas de sexo 100% puro. “No jogo sexual, geralmente o homem dá o tom e a mulher se deixa conduzir, o que nada tem a ver com passividade”, diz o neurofisiologista Martin Portner. “Isso porque, enquanto ele dá a direção, ela provoca, seduz, fala coisas sexuais no ouvido dele. Ela é co-autora dessa dança erótica.” Temporariamente, nos jogos de alcova, o macho pode ‘liberar’ sua fêmea para também mandar, afirma Martin. “Ele não teme ceder a ela a ‘liderança’. Ela o olha com fúria e pede para ser penetrada depois que ele a excitou de todas as formas.” Parece primitivo? E é. Essa é a graça. Que mulher não gosta de ter as roupas rasgadas e de ver tesão nos olhos do homem que a deseja com loucura?
Para despertar esse desejo instintivo, você precisa ser feminina, aceitar sem receio esses ‘personagens’ sexuais e entender que o sexo é uma brincadeira. Como escreve Esther Perel em seu livro: “O desejo sexual não obedece às leis que mantêm a paz e a satisfação entre os parceiros, como razão, compreensão, compaixão e camaradagem, elementos que favorecem uma relação harmoniosa. O sexo muitas vezes evoca antes obsessão irracional do que discernimento atencioso”. Essa você pode e deve mostrar ao seu marido. Para que esse jogo a dois aconteça apenas no terreno sexual e não afete o relacionamento cotidiano, a mulher precisa ter certeza de que o ‘poder’ do macho, sua determinação em ‘mandar’, a forma como ele a sujeita, acontecem só na cama. “O macho ‘com pedigree’ sabe disso e fora da cama é um cavalheiro. Trata a mulher com atenção e cuidado”, ressalta Martin Portner.
JAMAIS ABRA MÃO DOS AMIGOS E DAS ATIVIDADES QUE VOCÊ TINHA ANTES DO CASAMENTO PARA AGRADAR AO PARCEIRO. Fazer isso é assinar o atestado de óbito do desejo sexual que ele tem por você. “É difícil se sentir atraído por alguém que perdeu sua autonomia”, diz Esther Perel. “Talvez ele possa amá-la, mas é nitidamente mais difícil para ele desejá-la. Não há tensão.” Na opinião de Regina Navarro Lins, é preciso abandonar a idéia de que o casamento é uma espécie de fusão de almas. “Cada pessoa é uma pessoa. O respeito pela individualidade do outro é que mantém a incerteza saudável que alimenta o desejo sexual de ambos e torna a convivência mais rica”, afirma.

TRAGAM O NOVO PARA A RELAÇÃO

“A novidade, por mais insignificante que pareça, serve para manter o desejo (o seu e o dele) aceso”, ensina Ana Canosa. Transar em lugares diferentes é uma delas. É madrugada e vocês estão no elevador? Sussurre coisas provocantes no ouvido dele. Se não puderem transar ali mesmo , ao menos criem um clima. E como sugere Esther Perel: “Encontrem outras superfícies na casa que não a cama”. E que tal m curso de sexo tântrico, ou mesmo uma transa a três? Você acha que não vão segurar a barra emocional de encarar uma troca de casais? Ora, nada impede que vocês visitem ma casa de swing e fiquem só olhando. “O sexo a três e as casas de swing estão crescendo. Fiquei impressionada com o número de e-mails que recebi em resposta a uma pesquisa que fiz com 1.600 homens e mulheres casados para saber se gostariam de experimentar essas práticas. Mais de 80% disseram que sim. Haverá grande transformações na área do amor e do sexo nos próximos anos e, ao que tudo indica, o pacto de exclusividade sexual tende a acabar”, arrisca Regina Navarro Lins.

SEJAM MAIS INSTINTIVOS E MENOS CIVILIZADOS QUANDO ESTÃO TRANSANDO

“Na cama o comando deve ser do corpo, do desejo e não da mente crítica que nos enche de inibições” diz Ana Canosa. “Quando deixamos nossos ‘bichos’ interiores assumirem o controle, o sexo fica muito mais vivo”, reforça o neurologista Martins Portner. Nunca se masturbou para ele ver? Pois faça isso provocando, olhando nos olhos e gemendo baixinho. “Já disse ‘me fode gostoso, meu homem’? Não? O que está esperando?, pergunta Portner. O marido está no banho e você ficou com tesão? Então entre no box de roupa e tudo e faça um strip-tease no chuveiro. “Se permita sentir desejo e deixe-se levar por ele”, instiga Ana Canosa. E procure não cortar as iniciativas do seu marido com frases do tipo: “Agora não dá, estou fazendo o almoço”, ou “não estraga meu cabelo” ou “aqui não vai manchar o sofá”. “Esses ‘nãos’ afugentam o ‘bicho’ que mora nele – e em você -, finaliza a psicóloga.

SE POSSÍVEL, NÃO DURMAM JUNTOS

No início do casamento os casais adoram dormir abraçados, de conchinha. Com o tempo, a previsibilidade de deitar lado a lado – o que muitas vezes acaba levando a um sexo automático e obrigatório, quando um está excitado e o outro não – dá para ser resolvida com quartos separados. Pense em como pode ser excitante entrar no quarto dele de surpresa ou vice-versa. E, se usarem a imaginação, ainda podem criar várias fantasias em cima disso. Como a do desconhecido ou da desconhecida que entra no quarto e…

SINAIS DE QUE O EROTISMO ESTÁ CORRENDO PERIGO

Freqüência Funciona como termômetro do erotismo. Embora varie de casal para casal, duas ou três relações por semana indicam que o desejo entre vocês está em níveis elevados. “Se a freqüência cair para menos de uma vez por semana, atenção! Algo pode estar comprometendo o erotismo”, diz o neurofisiologista Martin Portner.

Beijo na boca Se os beijos de língua continuam sendo deliciosos e freqüentes, se vocês ainda curtem aqueles ‘malhos’ intensos e excitantes, mesmo de roupa, isso é um sinal de que as coisas vão muitíssimo bem entre vocês. “A ausência desses carinhos sexuais pode ser um alerta importante”, avisa a psicóloga Ana Canosa.

Apelidos Chamar o marido de ‘pai’ ou a esposa de ‘mãe’ depois do nascimento dos filhos não faz nada bem ao tesão, afirma a terapeuta sexual Ana Canosa. Por outro lado, utilizar apelidos com conotação erótica, que despertam a libido, indicam que o desejo de um pelo outro continua vivo e em alta na relação do casal.

Brincadeiras Na verdade, o sexo começa antes das preliminares. Casais sintonizados no desejo costumam fazer muitas brincadeiras eróticas ao longo do dia, como passar a mão, dar tapinhas no bumbum, dizer coisas sensuais um para o outro. Segundo Portner, a falta dessas brincadeiras pode indicar a domesticação do desejo.

Conversa Os assuntos se resumem aos problemas da casa e da profissão? Isso é um mau sinal, diz Ana Canosa. Casais erotizados conversam sobre sexo nos intervalos das relações. “Falam de suas fantasias, fazem comentários sobre ‘ontem à noite’. A ausência de temas sexuais pode indicar o declínio erótico do casal”, observa Martin Portner.

Preliminares Elas dão o start para uma relação sexual intensa. Valem palavras insinuantes, carícias, provocações… Conforme diz Martin Portner: “Se o tempo das preliminares está diminuindo ou elas nem acontecem mais, é indicativo de que falta vontade de estimular o parceiro e de que a libido anda domesticada”.

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